domingo, 10 de novembro de 2013

Rotina do cafézinho

Quando eu morava no Brasil eu não tomava café de jeito nenhum. Nem chocolate quente. Só tomava um cházinho de vez em quando e olhe lá.

Pano.

Aportei na terra do croissant no século passado. Aportei mesmo, a primeira vez que pisei na França eu cheguei por uma travessia de barco vinda da Inglaterra. Passeio legal, mas chato na época: não havia internet! Fiquei lendo no convés, tomando um solzinho. Foi muito bom!

Uma vez em Paris era estudante de francês de manhã, jeune fille au-pair à tarde, e jovem estrangeira descobrindo Paris depois do jantar.
Meus dias se resumiam a isso, o curso começava às 8h da manha, e ia dormir tarde. As vezes beeem tarde. Ou mesmo, as vezes ia dormir cedo, já era o dia seguinte.

Acontecia de não dormir. De passar a noite na balada com as colegas de curso de francês, todas estrangeiras, todas au-pair. Passar em casa para tomar um banho, trocar de roupa, pegar os cadernos e ir às aulas.
Nunca faltei aula por causa de balada. Era um compromisso que eu tinha comigo mesma.

Pois então, para ficar acordada precisava beber algo que me mantivesse acordada. Nada melhor que um cafézinho, não é?

Descobri o café brasileiro na França. "Chose de loque", como dizia (ou ainda fala!) o Jô Soares.

Pano.

Os anos passaram. Os estudos passaram e foram terminados. Virei funcionaria (quase) padrão. E adquiri alguns hábitos parisienses.

Ir no café, como são chamados os bares brasserie. Eles existem em várias esquinas de Paris, são de vários tipos (badalados, de bairro, meia boca, pé sujo).
Entrar, pedir um café, um copo de água e ficar olhando as modas.
Esporte nacional parisiense: no verão, escolher um café com terrasse (mesas na calçada), no sol, e ficar ali no bronze, olhando as modas, papeando com amigos. Quando está quente (temperatura de Paris heim?) pede-se un demi (um copo de cerveja para quem gosta), un verre de blanc ou rosé bien frais (um vinho branco ou rosé fresquinho), ou uma água, ou um refrigerante, ou um café mesmo.

Maridô e eu criamos uma rotininha básica do domingo, colocamos em prática quando não temos nenhum compromisso ou não estamos viajando: o cafézinho de depois do almoço no café do bairro.

Ficamos no balcão, em geral empoleirados num banquinho de bar. Ficar no bar é ficar amigo do patrão. Só pegamos mesinha quando tem alguém com a gente.

Ficar no balcão é o melhor lugar para saber o que está acontecendo no bairro, na política, com o vizinho da esquina (que não conhcemos caro). Ficar no balcão é ficar conhecido até virar amigo do patrão.

Quando entramos, Thierry, o patrão, nos diz Bonjour Monsieur, Madame, deux petits cafés?
Voilà. Fazemos parte da paisagem do nosso café.
Madame Jocelyne, que serve as mesas aos domingos, faz o eco no bom dia.

Eu digo que é uma espécie de rede social IRL, in real life.
Como nas redes as pessoas se conhecem de vista, se falam rapidamente às vezes, mas nem sempre. Se dão bom dia, falam do tempo, da política, da greve da hora (sempre tem uma grevinha básica na França). Um Twitter falado. Cada frase é um tweet, as vezes vira conversa, as vezes não.
Sempre faço meu check in, sou a mayor do pedaço!  Olha um pedaço de Thierry na foto!

As mesmas pessoas estão lá no balcão com a gente. Como não temos horário certo, nem todos os domingos vemos as mesmas pessoas. O que dá uma rotina bem variada.  Podemos mostrar que reconhecemos algumas pessoas com um pequeno movimento da cabeça em direção à tal pessoa que reconhecemos ou que nos reconheceu. Além do bom dia geral quando entramos.

Há o político aposentado, não sabemos se ele foi senador, deputado, um escrivão da vida.

Há o ex-diplomata, também aposentado, com suas atividades variadas: vem almoçar com seu cachorro, um galgo que parece mais velho que ele, escole uma mesa perto da porta-janela. As vezes ele vem sem o cachorro e senta no balcão para almoçar. Ou vem depois do almoço para um cafézinho. 

O açougueiro. NOSSO açougueiro do bairro. Fazemos nossas comprinhas domingo de manhã, feira, açougue. Depois das 14h, o açougueiro está lá no Thierry também. Ele e seu ajudante, tomam uma ou duas cervas, acompanhado de uma porção de fritas.
As vezes ele e Thierry fazem negócios: Thierry encomenda a carne da semana, ou para um prato especial. Sem anotar nada, de nenhum dos dois lados. Deve funcionar assim há anos.

O florista, qua passa rapidamente deixar o buquê que passa a semana no balcão ao lado do caixa. Um apero de mão do Thierry e já foi.

A senhora com seus cabelos brancos, com sua bengala e sua bolsa de vovó de outra época que almoça religiosamente sentada à mesma mesa. Sempre pede o prato do dia e seu copinho de vinho. Outro dia ela tomou dois copos. Ficou alegrinha. Thierry acompanhou-a até a porta do prédio dela, alguns metros adiante. Muito fofo.

O jovem bobo (bourgeois-bohème,  um novo tipo de parisiense, escreverei em outro post sobre eles) chega, pede seu almoço, steak-fritas, ou um sandwich, um demi ou copo de vinho. Fica no telefone enviando SMS para o mundo inteiro, ou lendo o jornal, ou contando a balada da véspera, a próima viagem, para algum amigo.

As vezes, raramente passamos durante a semana, ou sábado. E' um outro mundo. Outros funcioários.
Nas primeiras vezes ficamos perturbados: Thierry estava lá, mas era mais dinâmico que aos domingos, falando mais forte.
Observando melhor e principalmente ouvindo, descobrimos que não era o Thierry, mas o Laurent, seu irmão gêmeo! E onde está o Thierry durante a semana? Na cozinha!

Papo vai, papo vem, terminamos nosso cafézinho. as vezes pedimos um outro, deux noisettes (café com um pingo de leite, ou a pessoa que serve acrescenta ela mesma o leite para você, ou colocam o potinho de leite para você se servir). E voltamos para casa ou partimos para nossos passeios de domingo.

2 comentários:

Bubusca disse...

Interessante essa do café. O que você diz é verdade. Eu nunca pensei em ir tomar um cafézinho em um bar, assim, porque sou muito preguiçosa pra sair de casa. Mas também virei adepta do cafezinho. E nem gosto tanto de café assim. Mas os costumes viram ritual, às vezes :)

Juh Rio disse...

Eu comecei a fazer isto ha' algum tempo, muito tempo, antes de conhecer Maridô: sabado ou domingo de manha eu comprava (ou ja' tinha comprado) u jornal ou revista e ia pro café em frente à minha casa para ler.
De vez em quando vamos num café tomar um café com Maridô. Esta tradiçao do domingo foi lançada na realidade ha dois anos, quando nos mudamos para o nosso prédio atual: da janela vemos o cruzamento e 3 das quatro esquinas tem um café. Tinhamos que experimentar. E viramos fregueses do Thierry.